A Era das Redes Ciborgue, na Campanha e no Governo


[Marcelo Camargo/Agência Brasil]

Marisa von Bülow[1]

No dia da posse do novo Presidente da República, pessoas que se aglomeravam junto às grades de proteção na Esplanada do Ministério gritaram, ao serem filmadas pela câmara da TV Globo: Whatsapp! Whatsapp! e Facebook! Facebook![2] A mensagem era clara: sai a Globo, entram as mídias sociais e aplicativos de comunicação direta entre eleitores e eleitos.

No mesmo dia 1 de janeiro, circulava pelas mídias sociais uma montagem que comparava duas fotos: uma da posse do Presidente Lula em 2003 (onde aparece uma multidão) e outra da posse do Presidente Bolsonaro (sem a multidão). Um simpatizante do primeiro comentou: “um foi eleito pelo povo, e o outro pelo Whatsapp”. “Exatamente!”, concordou com ênfase o seguinte comentarista.

Apoiadores e detratores do Presidente concordam, portanto, sobre a importância definitiva da Internet no processo eleitoral e, em especial, do WhatsApp. Os números os apóiam: no Brasil o aplicativo tem aproximadamente 120 milhões de usuários, que o utilizam intensivamente no dia-a-dia. Esse uso varia, no entanto, a partir das preferências políticas. De acordo com dados de pesquisa de opinião realizada em novembro, 24,2% dos eleitores de Bolsonaro tinham o Twitter, Facebook e WhatsApp como principais meios de informação sobre política, em contraposição a 14,1% dos eleitores de Fernando Haddad[3]. Mas, enquanto para os eleitores de Bolsonaro a influência das novas tecnologias em 2018 teve uma conotação positiva – representa empoderamento e maior autonomia do eleitor frente à manipulação dos meios de comunicação – para outros teve o signo contrário – a ação de robôs e a disseminação de notícias falsas pelos canais virtuais distorcem o processo eleitoral.

Nenhuma dessas duas narrativas é exata.

Entre Robôs e Humanos

Ainda no dia 1 de janeiro, em uma das longas listas de comentários que invariavelmente se seguem aos tweets do vereador Carlos Bolsonaro, um apoiador do Presidente ironizava: “Continuem pensando em robôs e subestimando os adversários. Agradecemos”.

Tem razão o internauta. Não é possível entender o processo eleitoral, e nem o processo que se desdobra neste início do governo, se caracterizarmos os apoiadores de Bolsonaro como receptores passivos de notícias (verdadeiras ou falsas) e as manifestações a favor do Presidente como mero fruto da atuação de robôs. A campanha de Jair Bolsonaro foi fruto, em boa medida, do ativismo de seus eleitores nas mídias sociais em geral, e no Whatsapp em particular. E esse ativismo não foi inventado da noite para o dia.

Em dezembro de 2017, ou seja, quase um ano antes das eleições, a presença virtual de Jair Bolsonaro – medida em termos de quantidade de seguidores e visualizações nas diferentes plataformas – já era muito mais expressiva do que a de todos os demais candidatos. Essa diferença não diminuiu ao longo do período eleitoral. Pelo contrário. Basta mencionar um dado: às vésperas do segundo turno, a página oficial de Bolsonaro no Facebook tinha mais de sete milhões de seguidores, enquanto que a página do outro candidato, Fernando Haddad, tinha menos de um milhão. Essa diferença não se justifica pela entrada tardia de Haddad na campanha. Ao longo do ano de 2018 a página de Luiz Inácio Lula da Silva na mesma plataforma tinha entre 3 e 3.6 milhões de seguidores, enquanto que a página de Bolsonaro começou o ano já com 5 milhões.

É importante, portanto, reconhecer que a campanha de Bolsonaro foi, pelo menos em parte, baseada nas ações de uma extensa rede de militantes digitais, criada ao longo dos últimos anos a partir da participação em eventos políticos anteriores (em especial as Jornadas de Junho de 2013 e a campanha pelo impeachment de Dilma Rousseff).

Por quê enfatizar que foi em parte e não totalmente fruto da militância orgânica? Porque reconhecer a existência de uma rede de militantes autêntica e entusiasmada não pode impedir de dar um passo além e admitir que essa rede também utiliza processos automatizados, os chamados robôs ou bots. E não é apenas no caso da campanha de Jair Bolsonaro. A criação de redes políticas híbridas, o que chamarei aqui de “redes ciborgue”, é uma tendência geral do ativismo político digital. Redes ciborgue são organismos cibernéticos, meio humanos, meio máquinas. Assim como Will Smith em “Eu, Robô”, ou “o homem de seis milhões de dólares”, interpretado na década de 1970 por Lee Majors, as redes políticas ciborgue têm habilidades extraordinárias, sendo capazes de produzir novas polêmicas, e de dar maior visibilidade a certos interesses, atores ou ideias.