Eleições 2018 e representação: o que Lula e Bolsonaro têm em comum?


Foto: Marcelo Camargo e Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil


por Debora Rezende de Almeida

Professora do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília. Grupo de Pesquisa RESOCIE. Autora do livro “Representação além das eleições”.


Dois fenômenos políticos interessantes povoam as mentes e preocupações dos cientistas sociais na atualidade. A liderança nas pesquisas presidenciais de Lula, um candidato confinado pela justiça na prisão há quase 5 meses[i] e que acaba de ter seu direito de concorrer negado pela mesma, e a vice-liderança de Jair Bolsonaro, candidato de perfil político e ideológico oposto, cuja bandeira declaradamente conservadora e autoritária intriga pelo grande apoio que vem recebendo. Parto deste cenário para mostrar como as eleições presidenciais de 2018, no Brasil, são uma excelente oportunidade para refletir sobre a representação política e sua compreensão teórica. Esta é uma afirmação óbvia, afinal eleições e representação geralmente são vistas como sinônimas na Ciência Política. Porém, gostaria de propor uma reflexão sobre a representação que passa ao largo da ideia de mandato ou de sua relação com o consentimento dos indivíduos. Embora pareça contraditório, já que se trata de refletir exatamente sobre o voto, meu argumento é que para compreender por que dois candidatos opostos lideram as intenções de voto presidencial é preciso ir além das abordagens tradicionalmente consolidadas na área com foco, por exemplo, nas instituições partidárias e eleitorais, ou mesmo nas razões para o voto a partir de perfis socioeconômicos dos indivíduos. Estou me referindo a uma linguagem esquecida nas interpretações sobre a representação, que destaca a dimensão simbólica e performativa da relação entre representante e representado.


Para falar um pouco desta história, vale destacar que desde que as teorias política e da democracia recuperaram um pouco de criatividade e imaginação, há apenas duas décadas, elas têm alertado para o fato de que historicamente o conceito e a linguagem associada ao ato de representar apresentaram distintos significados[ii]. Pelo menos, dois sentidos são centrais na história do conceito, a ideia de mimesis – associada à representação descritiva que defende alguma semelhança entre representantes e representados – e a representação simbólica – que envolve uma performance e capacidade construtiva do representante personificar e encarnar a unidade do corpo social. Neste último significado, a representação, além de estar associada a uma atividade de governo ou de mandato, é também um ato de disputa discursiva na construção daquilo que deve ser representado, o qual não espelha exatamente a realidade, mas a transcende. Ou seja, toda representação é performativa e um processo dinâmico que envolve pessoas que reivindicam criar o representado – e mesmo personificá-lo – e uma audiência que reconhece ou rejeita esta reivindicação[iii]. O problema é que quando falamos de representação geralmente esta é uma dimensão deixada de lado, desde que foi consolidado um significado único e universal, defendido por uma obra muito famosa, de Hanna Pitkin[iv]. Para a autora, representar significaria agir de uma maneira responsiva aos interesses do representado. Esta formulação retira o caráter performativo e criativo da representação. Os estudiosos nas últimas décadas têm dado atenção a compreender como os eleitores – agora já com interesses dados – apresentam suas preferências nas eleições e como elas depois são transformadas ou não em políticas.


Mas o que todo este debate abstrato tem a ver com as eleições 2018? Tudo. Meu argumento é que as opções por Lula e Bolsonaro não se explicam sem o recurso à dimensão simbólica da representação. O vazio da representação atual não tem apenas relação com a dificuldade inerente ao modelo que pressupõe ser possível relacionar voto com preferências e depois transformá-las em políticas. As pessoas votam, mas não se reconhecem na política ou nos políticos. Ainda, é preciso contextualizar: esta eleição ocorre em um cenário de aguda crise da representação, em especial, de crescente sentimento por parte da população brasileira de não identificação com a política ou com os discursos oferecidos pelos políticos, em alguns casos de negação da mesma. Famosas hashtags que povoam o mundo online e se expressam também no país ajudam a compreender este sentimento – por exemplo, #nãomerepresenta e #nãoemmeunome. Vivemos, de fato, um vazio simbólico da representação. Aqui não é uma defesa a favor de um modelo (mandato) contra o outro (simbólico) ou uma ideia de que o consentimento e as eleições em si não sejam importantes. Mas um convite a perceber o momento eleitoral como palco de renovação do mandato e também de apresentação de novos pactos a partir dos quais os cidadãos brasileiros podem ou não se reconhecer como um “nós” em detrimento de um “eles”[v].


O que Lula e Bolsonaro oferecem ao eleitor é o reconhecimento de sua imagem nos seus discursos. De um lado, Lula pode ser considerado um dos maiores líderes carismáticos que este país já teve ao lado de Getúlio Vargas. Independente de aprovarmos ou não sua con