Destrinchando a avaliação do governo Bolsonaro

Carlos Ranulfo Melo

Professor titular do Departamento de Ciência Política - UFMG


Bolsonaro vem se isolando na sociedade brasileira. A nova pesquisa do INCT – Instituto da Democracia nos permite dizer algo mais sobre isso. O primeiro ponto a destacar é que apenas 49,2% dos que votaram no atual presidente em 2018 hoje avaliam seu governo como ótimo (18,6%) ou bom (30,6%). Em outras palavras, a questão que melhor demarca campos de opinião entre os brasileiros não é mais aquela que remete ao voto de 2018, mas a que pergunta sobre a avaliação do governo.


Quando cruzamos os dados, a correlação entre a avaliação do governo e questões como (a) o apoio a um golpe militar, (b) o fechamento do Congresso, (c) a presença de militares no atual governo, (d) a imposição pelo STF de limites a atuação do governo, (e) o que fazer se as denúncias de Sergio Moro se revelarem verdadeiras, (f) a avaliação sobre as manifestações que pedem o fechamento do Congresso e/ou do STF, ou ainda (g) o desempenho de Bolsonaro no combate ao COVID-19 se mostra duas a três vezes mais forte do que a correlação entre o voto em 2018 e as mesmas questões.


Os dados gerais da avaliação do governo são: Ótimo (8,5%); Bom (15,7%); Regular (25,5%); Ruim (13,6%); Péssimo (36,7%). A tabela abaixo permite avançar um pouco mais ao cruzar as respostas ótimo, bom e regular com algumas questões do survey.

A primeira linha fornece uma informação importante: menos de metade (45%) dos que avaliam o governo como regular dão uma nota acima de 6 para Bolsonaro. Nas demais questões, pode-se perceber que, exceção feita às linhas 2 (golpe de estado) e 6 (manifestações), a diferença entre os percentuais dos que avaliam o governo como bom e regular é expressiva, ficando entre 23 e 27 pontos. Por outro lado, é na avaliação da atuação de Bolsonaro na pandemia que se observa a maior distância entre os percentuais de ótimo e bom: 24 pontos. Esse, sem dúvida, é um ponto no qual o governo parece extremamente vulnerável. E, como sabemos, o problema só tende a aumentar.


Por fim, o que dizer do núcleo duro do bolsonarismo? Uma ideia pode ser fornecida pelo cruzamento entre a avaliação do governo e a nota dada a Bolsonaro. Como a nota varia de 1 a 10, o tamanho desse núcleo vai variar, a depender do ponto que adotarmos na escala. Se cruzamos os percentuais de ótimo/bom com os que dão a Bolsonaro uma nota igual ou maior que 6, o núcleo duro corresponderá a 22% do universo pesquisado. Subindo o sarrafo e tomando como base as notas 7, 8, 9 ou 10 teremos, respectivamente, 21,2%; 19,9%; 14,6% e, por fim, o crème de la crème, 11,4%. Uma alternativa é mantermos o sarrafo na nota 6 e verificarmos o percentual dos que, neste grupo, discordam que o STF imponha limites ao governo ou que consideram que Bolsonaro deva continuar no governo mesmo que as denuncias feitas por Sérgio Moro sejam verdadeiras. Nos dois casos, nosso núcleo dura ficará por volta de 15% do universo pesquisado – patamar semelhante ao encontrado que cruzamos a avaliação ótima/boa com uma nota igual ou superior a 8 para Bolsonaro.


Neste núcleo 56,6% são homens, 41,3% são evangélicos e 50% tem renda familiar entre 3 e 10 salários mínimos. A desproporção é evidente uma vez que esses mesmos grupos correspondem a 45,7%, 24,4% e 33,1%, respectivamente, do total de entrevistados. O núcleo é também desproporcionalmente composto (sempre em relação ao conjunto dos entrevistados) por pessoas brancas, entre 24 e 45 anos e que possuem colegial completo ou não – mas nestes casos as diferenças são menores que as citadas anteriormente.

A pesquisa

A pesquisa A Cara da Democracia no Brasil realizou mil entrevistas por telefone entre os dias 30/05/2020 e 05/06/2020, com margem de erro de 3.1%. O intervalo de confiança de 95%. A pesquisa é parte de um conjunto de investigações sobre representação, participação e opinião pública no âmbito do Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação (INCT). O survey de 2020 foi precedido por outros realizados em 2018 e 2019.

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