#EleNão e o voto das mulheres nas eleições presidenciais de 2018


*Flávia Biroli

De acordo com os dados divulgados pelas pesquisas de intenção de voto mais recentes, o candidato do PSL, Jair Bolsonaro, tem chances reais de estar no segundo turno das eleições presidenciais. O mais provável, também seguindo os resultados das últimas pesquisas, é que a disputa seja entre ele e Fernando Haddad, candidato do PT que vem crescendo e ganhando distância em relação a Ciro Gomes (PDT), Marina Silva (Rede) e Geraldo Alkmin (PSDB), o que demonstra a capacidade do ex-presidente Lula de transferir larga parcela das intenções de votos que o colocavam na liderança antes da decisão do TSE que barrou sua candidatura.

A presença de uma candidatura de extrema-direita à frente das pesquisas é um elemento novo na política brasileira, se consideramos as últimas três décadas. Não se trata de uma eleição na qual se afirmem extremos, no entanto, mas sim da clara demonstração de que apesar da adesão à extrema-direita ter crescido, uma centro-esquerda com propostas moderadas de desenvolvimento e enfrentamento das desigualdades mantem peso eleitoral significativo. Se Bolsonaro alcançou 28% das intenções de voto em cenário estimulado na pesquisa do Instituto Datafolha divulgada em 20 de setembro, Fernando Haddad e Ciro Gomes somaram, juntos, 29% das intenções de voto, indicando certo equilíbrio ideológico.

Nesse cenário, há fatores no posicionamento do eleitorado que saltam aos olhos. Um deles é o regional, com forte concentração das intenções de voto de eleitores e eleitoras da região Nordeste nos candidatos de centro-esquerda. Nessa região, Fernando Haddad tem larga vantagem sobre Jair Bolsonaro, com 26% das intenções de voto, contra 17% do candidato de extrema-direita. Se somamos os percentuais do petista aos de Ciro Gomes, são 43% contra os 17% de Bolsonaro. Na região Norte, por sua vez, o conjunto de intenções de voto nos candidatos de centro-esquerda é de 32%, o mesmo percentual do candidato do PSL. É nessas duas regiões, ainda, que o candidato de extrema-direita encontra seus maiores índices de rejeição.

O segundo fator de diferenciação é o gênero, que analiso mais detidamente neste artigo. A questão à qual procuro responder é por que, em todas as sondagens eleitorais divulgadas até o momento, há diferença significativa na distribuição das intenções de voto de homens e mulheres. Na pesquisa do Datafolha, as manifestações de voto espontâneas entre os homens são o dobro daquelas verificadas entre as mulheres. Enquanto 33% deles declaram espontaneamente seu voto no capitão, esse patamar cai para 16% entre as mulheres. Quando a lista de candidaturas é identificada (com resposta estimulada e única), o candidato da extrema-direita mobiliza 36% do eleitorado masculino e 21% do feminino. Enquanto isso, o gênero não é uma clivagem significativa nas adesões aos candidatos de centro-esquerda. Nesse último cenário, em que as candidaturas são identificadas, Fernando Haddad tem 17% das intenções de voto dos homens e 16% das mulheres e Ciro Gomes tem 13% entre eles e entre elas.

Os índices de rejeição apresentados pela pesquisa reforçam o entendimento de que homens e mulheres avaliam distintamente o cardápio eleitoral – e, como discutirei abaixo, o que cada candidato representa. Entre eles, 37% respondem que não votariam de jeito nenhum em Bolsonaro no primeiro turno da eleição; entre elas, são 49%. Isso significa que metade das mulheres brasileiras aptas a votar rejeita o candidato de extrema-direita. Haddad e Ciro, numa situação inversa à do candidato do PSL, encontram maior rejeição entre os homens – 35% deles e 24% delas dizem que não votariam em Haddad no primeiro turno; no caso de Ciro são 26% e 18%, respectivamente. Há algumas pistas de porque isso ocorre, é sobre elas que passo a falar agora.

Bolsonaro tem histórico conhecido de manifestações sexistas e de ódio contra as mulheres. Mais do que algum desvio de conduta, o machismo e a homofobia foram alguns dos recursos que utilizou para a construção de sua imagem pública. Dada sua pouca expressão como deputado federal, embora ocupe o cargo desde 1991, manifestações de caráter sexista e misógino permitiram que se destacasse em um período no qual se tornavam menos aceitáveis. É verdade que as mulheres não vivenciam ou percebem da mesma forma o sexismo, mas é também suficientemente seguro afirmar que mulheres e homens têm experiências bastante diferentes com o machismo, expresso na forma da desvalorização e da violência contra elas, enquanto pode significar, para eles, um modo de exercitar o controle e o poder.

Entendo, no entanto, que as clivagens de gênero nas intenções de voto expressam mais do que ecos e reações ao sexismo. Daí ter começado este artigo com uma análise das candidaturas que mais têm pontuado nas pesquisas de voto, agregadas em um campo de extrema direita e um de centro-esquerda. Embora não se possa dizer que essas últimas escapem à agenda neoliberal, Haddad e Ciro apresentam críticas a seus efeitos e afirmações claras do papel do Estado na regulação da economia e na redução das desigualdades. No Brasil, as mulheres, e sobretudo as mulheres negras, estão entre aquelas que mais têm a perder com a redução de investimentos e de direitos sociais, dada sua posição vulnerável no acesso a emprego e a renda. Principais responsáveis pelo cuidado das crianças e dos idosos, estão à frente dos lares mais pobres, ocupam vagas de trabalho mais precárias e com menor remuneração e têm suas dificuldades acentuadas quando não há oferta de creches e de escolas de qualidade para seus filhos, assim como quando se reduzem os investimentos em políticas sociais distributivas. Elas, que têm mais estudo do que eles, mas ocupações menos valorizadas e renda menor, talvez desconfiem do discurso de que é o mérito individual que define a competição.

A realidade social das mulheres pode estar sendo desafiada quando, em um país em que 11,6 milhões de famílias são, segundo dados de IBGE de 2015, formadas por mulheres sem cônjuges com filhos, o candidato a vice-presidente de Bolsonaro diz que

as casas em que mães e avós criam sozinhas seus filhos e netos são “fábricas de desajustados”. Do mesmo modo, ao defender a tortura e os torturadores e apresentar a força policial letal como recurso para combater a violência, a campanha do candidato de extrema-direita pode despertar em muitas mulheres um temor fundado em sua experiência. Na periferia das cidades brasileiras, a força policial e militar tem sido letal para seus filhos, sobretudo se são adolescentes e jovens negros. Enquanto as últimas pesquisas eram divulgadas, as “Mães de Maio”, organização de mulheres que perderam seus filhos assassinados em crimes atribuídos a policiais, postavam em sua página de Facebook as frases “Milicos não!”, “Machistas não!”, “Racistas não!”. A promessa de militarização pode ser mais atraente para segmentos de maior renda e para os homens do que para as mulheres negras e para as de baixa renda.

Em seus programas de governo, os candidatos demonstram como entendem essa situação – e se dão a ela alguma importância.

Nas 81 páginas do programa político de Bolsonaro, há apenas uma menção às mulheres, como vítimas de estupro. E nenhuma palavra sobre sua posição nas relações de trabalho ou qualquer outro aspecto das desigualdades de gênero que pudesse ser mobilizado. Elas existem como vítimas, mas não como sujeitos sociais. A entourage masculina do candidato, parte dela fardada, confirma que também não estão contempladas como sujeitos políticos.

Os programas de Fernando Haddad e Ciro Gomes incorporam em diversos pontos as demandas por igualdade de gênero. No programa do PT, o sumário já contem um item sobre o tema (21, “Promover políticas para as mulheres visando a igualdade de gênero”). Ao longo do programa, há registros das desvantagens delas nas relações de trabalho e propostas de políticas públicas para promover igualdade e paridade. O programa do PDT também menciona as “desigualdades sociais entre homens e mulheres”, registrando a posição desvantajosa das últimas no acesso à riqueza, ocupações e cargos políticos e propondo políticas públicas para sua superação.

O termo gênero e a expressão direitos das mulheres, assim como o reconhecimento das questões raciais e étnicas como componentes das desigualdades, conectam o universo discursivo das candidaturas de centro-esquerda ao dos movimentos feministas e de mulheres, que têm um peso ampliado na cena pública, se comparado a contextos político-eleitorais anteriores.

Finalizo essa breve análise da posição das mulheres nas eleições de 2018 ligando os pontos já traçados neste artigo ao ano de 2014 e à deposição da presidenta Dilma Rousseff em 2016. O questionamento imediato do resultado das eleições de 2014 pelo PSDB e a operação Lavo-Jato, iniciada no mesmo ano, são elementos fundamentais para se compreender o sucesso da campanha que levou ao afastamento da petista. Também explicam o que alguns de seus protagonistas não previram, isto é, o enfraquecimento do PSDB de Aécio Neves e Geraldo Alckmin. A aposta no eixo da corrupção para a desconstrução e criminalização do PT atingiu fortemente os tucanos e o equilíbrio político de um sistema que por mais de duas décadas orbitou, em grande medida, em torno de disputas e clivagens entre os dois partidos. Atingiu também a legitimidade da política democrática, alimentando o crescimento de uma candidatura de caráter autoritário.

Mas o resumo que fiz acima deixa de fora algo que pode ser, também, relevante para a explicação do cenário atual. Uma mulher, a primeira a presidir o país, foi deposta em meio a uma campanha agressivamente sexista. A nomeação de um ministério inteiramente masculino foi amplamente noticiada. Há indícios de que as mulheres tiveram uma apreciação um pouco diferente da dos homens do que se passou no país. Na pesquisa realizada pelo Datafolha nos dias 29 e 30 de novembro de 2017, 66% dos homens e 75% das mulheres avaliaram como ruim ou péssimo o desempenho do governo Temer, que completava naquele momento um ano e seis meses. A pesquisa feita pelo Datafolha também investigou como eleitores e eleitoras viam o governo Temer se comparado ao de Rousseff. Nesse caso, a visão crítica das mulheres também foi mais aguda: 56% dos homens e 68% das mulheres responderam que o governo Temer é pior do que o governo Dilma.

Minha hipótese mais geral é que a mistura do receituário neoliberal com o conservadorismo moral encontra maior resistência entre as mulheres – e ninguém a encena melhor, no ambiente nacional, do que Bolsonaro. A posição objetiva da maior parte delas nas relações de trabalho e familiares pode trazer ao menor à recusa de se atuar para garantir condições igualitárias ou de se reconhecer o machismo como um fator na violência que elas enfrentam cotidianamente. Mas é quando observamos trabalho e renda que encontramos, também, bases para explicar porque sua adesão ou rejeição à candidatura de extrema-direita não ocorre de maneira similar em todos os segmentos de renda. Enquanto 14% das mulheres com renda familiar mensal de até dois salários mínimos declararam voto em Bolsonaro, esse percentual se eleva para 32% entre aquelas que ganham mais do que cinco salários mínimos. Já na votação em Haddad, a diferenciação dos segmentos de renda praticamente inexiste – 18% das mulheres que pertencem ao segmento de menor renda e 17% das que integram o de maior renda declararam voto no candidato. Como sabemos nos estudos de gênero, classe e raça importam para se compreender a posição relativa das mulheres. Parecem importar também, nessa eleição, na definição do voto, mas é algo que precisaria ser esclarecido pela análise de dados das pesquisas aos quais não tive acesso.

O #EleNão que aparece nos resultados das pesquisas de intenção de voto e em movimentos nas redes sociais que reuniram, em um único grupo de Facebook, mais de 2 milhões de mulheres é expressivo da baixa identificação de segmentos amplos do eleitorado feminino com aquele que não as reconhece como sujeitos políticos e não dá importância para os desafios específicos que enfrentam. O investimento na suavização de imagem do candidato de extrema-direita e as emoções despertadas pelo atentado que sofreu parecem ser insuficientes para tornar atrativa para elas uma campanha que tem no seu cerne a recusa do papel do Estado para a promoção da igualdade, o apelo à caserna como projeto de ordem, a mímica irresponsável das brincadeiras masculinas de bang-bang e a exclusão massiva das mulheres.

* Professora do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília

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